Não é sobre a comida

Não é sobre a comida

Um dia você, de repente, se dá conta de que comeu toda a comida da casa. E só isso. Você tem até uma ideia de como isso aconteceu, mas não tem certeza. Você percebe as embalagens rasgadas jogadas, os potes de sorvete, que antes tinham feijão congelado, agora estão aí… jogados e sujos, do lado daquele pacote de batatas congeladas que também está vazio, e a airfryer continua limpinha.

Não, ninguém gosta de comer tudo isso de uma vez.

Para esconder tudo, você faz o óbvio: joga as embalagens no lixo, de preferência longe da sua casa, para ninguém perceber. Em um misto de vergonha, nojo (de você mesmo, da sua conduta, e talvez do que você acaba de se dar conta de que acabou de comer), um medo súbito sobre o que podem te dizer sobre o que você comeu, e a vontade de se ver “livre daquele pecado”, você vai ao banheiro e induz o vômito. Mais controlado, você vai ao mercado para repor toda a comida antes que alguém note, para poder repetir esse ciclo mais uma vez, sem que ninguém se dê conta.

Existem vários tipos de transtornos da conduta alimentar. E quase nenhum deles está diretamente relacionado com a comida. Imagine que essa relação distorcida com a comida é secundaria a um problema ainda maior. É como se você deixasse a torneira aberta na pia com o ralo tapado: em vez de a água seguir seu curso, ela vai encher a pia e transbordar. Algum desavisado pode ver a cena e dizer: “O problema é o chão molhado”, sem se dar conta da água transbordando, ou ainda, do ralo tapado.

É fácil falar da dor alheia quando você não faz ideia do que está acontecendo. O que você resolve primeiro?

Isso não quer dizer que os transtornos da conduta alimentar não são importantes ou que eles não devem ser tratados: a anorexia nervosa é o segundo transtorno mental que mais mata, perdendo apenas para a overdose de opioides (Mayo Clinic, 2024). Além disso, os transtornos que envolvem condutas purgativas como o vômito podem causar danos aos dentes, ao esôfago, olhos, nariz, etc (Inside Out Institute for Eating Disorders, 2024).

Tipicamente, os pacientes de transtornos da conduta alimentar passam por, pelo menos, um desses dois tipos de dificuldades para procurar e conseguir ajuda: reconhecer que tem um problema, e a vergonha de ter um problema. E nos dois casos, o paciente sofre sozinho, e essa dificuldade é sempre reforçada pelo entorno social. Seja porque a pessoa está emagrecendo, seja porque a pessoa está engordando… alguém sempre vai se achar no direito de opinar sobre o corpo da outra pessoa. Falemos, brevemente, sobre os mais conhecidos (tem outros) transtornos da conduta alimentar.

Anorexia Nervosa

A anorexia nervosa, em linhas gerais, é o transtorno em que a pessoa decide não comer, ou cortar drasticamente a quantidade de comida ingerida. Pode sim haver purgação (a pessoa come e vomita, come e vai se exercitar, come e toma laxantes, etc), mas a característica principal desse transtorno é o corte significativo na ingestão calórica. Não vou falar de motivações. A perda de peso inicial é rápida, e normalmente é incentivada por comentários como “Nossa, como você emagreceu!”, e esse tipo de incentivo contribui com a primeira dificuldade, afinal, se todo mundo está elogiando, não existe problema.

Não importa o que você diga, eu sei que preciso perder peso.

Esse reforço constante através de elogios pela perda de peso, além de dificultar o reconhecimento de um problema, dificulta muito a busca por ajuda. O que nos leva ao segundo problema. Afinal, para quem a pessoa vai contar? Para quem a esteve elogiando durante todo este tempo? O que essas pessoas vão dizer quando descobrirem que, na verdade, a perda de peso era porque a pessoa estava “doente”? E, ainda que essa pessoa diga alguma coisa, o que vão dizer de volta? “Por que você simplesmente não come alguma coisa?” Mas essas pessoas não entendem que, na cabeça do anoréxico, o medo de engordar é muito maior que o medo de morrer.

Compulsão alimentar

A compulsão alimentar é o ato de, conscientemente ou não (a pessoa tem um “apagão” de consciência), mas involuntariamente, consumir uma quantidade absurda de comida em um período muito curto de tempo. Não estou falando de comer dois pratos de comida (ou até três) no almoço que a sua avó fez aquela macarronada. Estou falando da ingestão de dez mil calorias em duas horas. Segundo o próprio DSM-5:

  • Ingestão, em um período determinado (por exemplo, dentro de um período qualquer de duas horas), de uma quantidade de alimentso que é claramente superior ao que a maioria das pessoas ingeririam em um período similar em circunstâncias parecidas.
  • Sensação de falta de controle sobre oq ue se ingere durante o episódio (por exemplo, sensação de que não se pode deixar de comer ou não se pode controlar o que se ingere, ou a quantidade do que se ingere)

Esse desespero acontece pelo menos uma vez por semana, e a pessoa tem muita vergonha disso. Como no exemplo que eu mencionei, a pessoa tenta esconder a compulsão. Joga fora as embalagens, compra mais comida antes que percebam… A vergonha é muito forte. E quanto a reconhecer que existe um problema… existem pessoas que sabem que vão ter episódios de compulsão alimentar, e já se planejam escondendo comida peal casa para que, quando o episódio aconteça, ninguém se dê conta, já que ali não era para ter comida.

Meu Deus! O que foi que eu fiz?

Uma coisa muito importante sobre a compulsão é que não existe “eu tenho compulsão por doces”. No máximo você talvez precise rever alguns hábitos alimentares. Comer uma caixa de bombons não é compulsão alimentar. Comer dez ou quinze, sim. A compulsão pode até começar por um tipo específico de comida, mas não necessariamente termina ali. Uma pessoa pode começar comendo todos os doces da casa. Dali, pula para os salgados, frutas, o que tiver, e até o que não esteja pronto para consumo, como macarrão cru ou molho de tomate na lata.

Deixando claro, uma pessoa não tem compulsão alimentar e anorexia. São diagnósticos eliminatórios pela própria natureza de cada um. Porém, uma pessoa com anorexia pode ter uma refeição normal e achar que teve compulsão alimentar.

Bulimia Nervosa

A bulimia se caracteriza pela presença de compulsão alimentar e pela conduta compensatória para evitar a perda de peso imediatamente após a compulsão, seja através da indução de vômitos, uso de laxantes, prática abusiva de exercícios, etc. Novamente, a bulimia e a anorexia são diagnósticos excludentes. Uma pessoa não é bulímica e anoréxica ao mesmo tempo.

Em termos de sofrimento, a bulimia pode ser ainda pior que a compulsão alimentar porque, além de englobar aquele transtorno, a pessoa acredita que a conduta compensatória terá algum efeito para baixar de peso, mas não acontece. O que acontece, em muitos casos, é um deterioro dos dentes, do esôfago e da garganta pelo excesso de vômitos, já que todo o ácido do estômago vai passar por ali, além do inchaço das glândulas salivares, deixando a pessoa com um aspecto caratcterístico.

Todos os transtornos são ruins. Mas alguns conseguem ser piores que outros.

Aqui, a vergonha sentida é muito grande, já que o julgamento é duplo: “Por que você não come menos?” “Por que você simplesmente não deixa de vomitar depois de comer?”. No início, reconhecer que existe um problema é difícil, já que a conduta compensatória até ajuda a controlar a compulsão. Porém, eventualmente, com os problemas que eu já mencionei, além das calosidades geradas nas mãos, esse problema acaba ficando mais evidente.

Conheço alguém que tem um desses problemas e não sei como ajudar

Dependendo do caso, a pessoa talvez precise até ser internada, como na anorexia extrema, em que a pessoa tem um IMC inferior a 15 (por exemplo, uma pessoa de 1.70m pesando 43 kg). Algo que você sempre pode fazer é perguntar como essa pessoa está, e se tem algo que você possa fazer para ajudar. Lembre-se de que os transtornos alimentares podem ser muitas vezes secundários a algum outro problema como uma crise de burnout, ou uma depressão, ou mesmo dismorfia corporal (a pessoa se enxerga diferente do que ela é).

Se a pessoa se abrir para você, converse com ela e mostre apoio. Se você quiser ser curioso, faça perguntas genuínas como “O que você sente?” e não sugestões disfarçadas de perguntas como “Por que você não vai lá e faz um sanduiche?”. Saber que as pessoas se importam pode ser mais importante que qualquer terapia.

Você não tem que ser terapeuta dos seus amigos, mas você pode conversar como amigos fazem.

Eu acho que me encaixo nessas situações e não sei o que fazer

Se você acredia que não tem uma rede de apoio, ou que essa rede não te entenderia, o primeiro passo é buscar a terapia. Transtornos alimentares são tratados em abordagens multidisciplinares com psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, etc., para garantir o bom funcionamento do corpo. A abstinência de comida, a ingestão em excesso, as condutas purgativas… tudo isso, ao longo do tempo, pode causar danos ao organismo e, se tudo isso não for bem tratado, pode haver consequências.

Se você se sente inseguro em buscar ajuda, me escreva em luisborin@luisborin.org. Posso te ajudar a dar os primeiros passos rumo a um estilo de vida mais saudável.

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